A intensidade de alguns amores

0 comentários domingo, 27 de março de 2011
"Para ser amor precisa durar toda uma vida? E se amarmos a pessoa mesmo estando longe dela? E se desejarmos a felicidade de outra pessoa mesmo sem estar com ela? Isso não é amor?" (Uma amiga)
Amores não vêm e vão. Amores verdadeiros permanecem. E ainda que se tornem irrealizáveis, passam a se alimentar de uma esperança capaz de mantê-los iluminados. O mundo, porém, não pensa assim. É fácil desprezá-los. Afinal, quantas vezes podemos apontá-los? Quantas vezes podemos ser testemunhas de uma espécie de amor assim? Mas quando um amor deste tipo nos bate à porta, nos trancafiamos à chave, fechamos as janelas, obstruímos as frestas, porque não queremos estar a sua presença, não queremos ouvir o seu chamado.
Duvidamos do que não vemos e do que é inconsistente.  Duvidamos daquilo que pode transbordar e ir mais além. Queremos apenas manter o controle, queremos apenas nos sentir seguros, que nada escape de nossas perspectivas, que nada incomode o nosso olhar.
O mundo não quer saber daqueles que amam com intensidade. Não quer saber porque amor e intensidade é pleonasmo.  Porque amar é uma forma de perturbação, com a qual não estamos acostumados, porque preferimos toda a inércia do mundo e tudo aquilo que parece seguro e confortável. Porque ser amado e retribuir dá trabalho, um trabalho que deveria ser prazeroso, generoso, mas que nos mói o coração e nos arrasta para o desconhecido.
Sabendo que um amor intenso é uma forma de amor não convencional, o ignoramos. Como ignoramos os fenômenos que nos cercam, como menosprezamos os eventos que não podemos seguramente atribuir explicação. É mais fácil, acreditar no consistente, no palpável, no que pode ser quantificado e se mostrar comum. Mesmo que este amor vulgarmente oferecido seja torto e se esvazie com facilidade.
Tememos um amor que nos tira o ar. Tememos porque ele parece ameaçar a nossa aparente sanidade, a nossa razão, com atos que julgaríamos insólitos por não estarmos habituados a ele. É como um estranho que bate à nossa porta, que estende a sua mão e nos pede abrigo. Quem, em sã consciência a abriria? Quem o deixaria entrar, o abrigaria e o alimentaria sem suspeitar de suas intenções? O amor intenso é a própria imagem da estranheza. Temos medo dele porque ele não nos é apresentado com frequência e, por isso, confabulamos e o julgamos precipitadamente.
O amor intenso é o são que corre nu à nossa frente. Tenta de maneira desesperada chamar a nossa atenção. Quer que nos desnudemos de nossas próprias vestes e o cubramos com os trajes que temos. Quem, em são consciência seria capaz de oferecer mais do que o essencial? Quem seria capaz de se dar ao outro com tanto fervor? Ele de maneira alguma desafia as leis de Deus, ou nos impede de refleti-las. Não é igual ao amor divino porque a sua busca é outra. Porque é imperfeito. Verbo transitivo que quer unir-se a um objeto e que por ser honesto e terno, nos eleva também ao coração de Deus.
No mundo, onde o que impera são as banalidades, no qual trocamos afeto verdadeiro e presencial por distâncias, o calor das relações necessárias pela frieza de uma falsa segurança solitária e individualista, o amor intenso encontra pouco terreno para germinar. Quem o acolhe no peito é tido por louco, quem o eleva a máxima potência é extremista e ingênuo porque rompe com a superficialidade e busca observar acima das nuvens.
É fácil descartarmos o amor daqueles que nos amam com intensidade porque temos medo de sermos amados por inteiro e de verdade, por enxergarmos nesse amor que não se interrompe um tipo de loucura, insanidade. Mas em contrapartida, aceitamos facilmente o amor daqueles que nos amam tortamente e com indiferença, que nos machucam com palavras e nos ferem com gestos, por acreditarmos que esse amor comum é o que apenas o mundo tem a nos oferecer como o padrão de amor. Isso não seria o mais insano? Isso não seria o ato mais arriscado?
Suspeitamos do amor que não conhecemos ou que não nos é familiar. Preferimos o descompromisso daqueles que nos amam equivocado ou que não nos amam em verdade e nem em intensidade por serem incapazes de amar ou ter compaixão.
O amor intenso nos irmana, é fiel e duradouro, nos faz reconhecer no outro as nossas fragilidades, mas nos torna contraditoriamente fortes e esperançosos.

Permanece duradouro no coração daqueles que assim amam. Poucos, é verdade. Intimida-se com facilidade diante do desprezo ou da indiferença do amado, sofre com a naturalidade da dor provocada por cada tombo, mas ergue-se com ainda mais força e determinação. Apoia-se numa verdade que o mundo desconhece e teme, e persevera por acreditar em sua própria condição digna e sublime.  
O amor intenso não é loucura e apenas uma manifestação sincera,  prece espontânea, um reflexo humano do amor de Deus. Não por a este se igualar, mas por servir de lâmpada aos pés daqueles que, na escuridão de um mundo torto e surdo, buscam também por outras vias o caminho do Altíssimo.
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