Em algum lugar de um asteróide qualquer

"Deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais, porque o Reino de Deus é daqueles que se parecem com elas. Em verdade vos declaro: quem não receber o Reino de Deus como uma criancinha, nele não entrará." (Lucas 18,15-17)

A ocasional leitura de um capítulo de “O Pequeno Príncipe” do escritor francês Antoine de Saint Exupéry me fez refletir sobre como nós, adultos, damos tanta importância a coisas desnecessárias e fúteis. Passamos grande parte do tempo aprisionados em nossas certezas, tentando justificar as nossas verdades fabricadas, que esquecemos de olhar em volta e ver o quanto a vida é maravilhosa, e quantas maravilhas ainda há no mundo. Trocamos a nossa felicidade, o nosso bem-estar, o afeto que deveríamos construir todos os dias uns pelos outros por coisas banais e mesquinhas e justificamos as nossas escolhas por nada com arrogância e indiferença.
 
Por alguma razão que não cabe a mim explicar, enxergamos nos nossos trabalhos, nas nossas obrigações cotidianas um sentido maior que elas realmente não têm. Não porque não deveriam ser importantes. Elas são. Necessárias.  Mas por que só são importantes quando aliadas a tantos outros aspectos da nossa vida. Quando esquecemos de olhar para a vida de forma panorâmica, e passamos a nos focar apenas em uma coisa, nos tornarmos facilmente vitimas dos nossos juízos e do nosso egoísmo.  Capazes de atribuir força imensa ao que fazemos, e menosprezar todo o trabalho feito por outrem. 
 
“[...] Perguntou-me, sem preâmbulo, como se fora o fruto de um problema muito tempo meditado em silêncio:
- Um carneiro, se come arbusto, come também as flores?
- Um carneiro come tudo que encontra.
- Mesmo as flores que tenham espinho?
- Sim. Mesmo as que têm.
- Então. . . para que servem os espinhos?
Eu não sabia. Estava ocupadíssimo naquele instante, tentando desatarraxar do motor um parafuso muito apertado. Minha pane começava a parecer demasiado grave, e em breve já não teria água para beber. . .
- Para que servem os espinhos?
O principezinho jamais renunciava a uma pergunta, depois que a tivesse feito. Mas eu estava irritado com o parafuso e respondi qualquer coisa:
- Espinho não serve para nada. São pura maldade das flores. [...]”

 
Crescemos realmente para quê? Para nos entregarmos com menosprezo à vida? Para confabularmos sobre as nossas crenças, ideias e filosofias? Para deflagrarmos ódio pelo diferente e guerra contra supostos inimigos?  Eu realmente não sei para que serve a maturidade. Seria um prenúncio de apodrecimento? Como ocorre ao fruto das árvores?
 
Com simplicidade, as palavras de Saint Exupéry me recolocaram novamente em órbita. Mostraram-me um mundo que até então não conhecia, porque tinha vivido até o momento de olhos fechados.
 
“ [...]Mas após um silêncio, ele me disse com uma espécie de rancor:
- Não acredito! As flores são fracas, ingênuas. Defendem-se como podem. Elas se julgam terríveis com os seus espinhos ...
Não respondi. Naquele instante eu pensava: "Se esse parafuso ainda resiste, vou fazê-lo saltar a martelo". O principezinho perturbou-me de novo as reflexões:
- E tu pensas então que as flores ...
- Ora! Eu não penso nada. Eu respondi qualquer coisa. Eu só me ocupo com coisas sérias
Ele olhou-me estupefato:
- Coisas sérias !
Via-me, martelo em punho, dedos sujos de graxa, curvado sobre um feio objeto.
- Tu falas como as pessoas grandes!
Senti um pouco de vergonha. Mas ele acrescentou, implacável:
- Tu confundes todas as coisas ...”


Sou homem, e como qualquer outro, trabalho, pago as minhas contas, praguejo contra os impostos que tenho que pagar, ocupo-me com atividade, às quais atribuo importância, mas continuo com os mesmos questionamentos de menino.  Inconformado, impaciente, caprichoso como uma criança que não aceita o mundo que vê, e não compreende porque perdemos tanto tempo em coisas tão pequenas.
 
“ [...]O principezinho estava agora pálido de cólera.
- Há milhões e milhões de anos que as flores fabricam espinhos. Há milhões e milhões de anos que os carneiros as comem, apesar de tudo. E não será sério procurar compreender por que perdem tanto tempo fabricando espinhos inúteis? Não terá importância a guerra dos carneiros e das flores? Não será mais importante que as contas do tal sujeito? E se eu, por minha vez, conheço uma flor única no mundo, que só existe no meu planeta, e que um belo dia um carneirinho pode liquidar num só golpe, sem avaliar o que faz, - isto não tem importância?!
Corou um pouco, e continuou em seguida:
- Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões e milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla. Ele pensa: "Minha flor está lá, nalgum lugar... "  Mas se o carneiro come a flor, é para ele, bruscamente, como se todas as estrelas se apagassem! E isto não tem importância![...]”


Talvez seja tarefa difícil, quem sabe inviável para tantos homens crescidos em torno de si, preocupar-se com o que está além dos olhos e sentidos.  Talvez a própria vida, com seus muitos problemas, suas muitas imposições, os obriguem a adotar uma postura indiferente e fria.  As flores desbotam rápido. As primaveras gastam-se em horas. O amor é um cântaro que esvaziamos para alimentar a nossa incapacidade ou nosso medo de sentir contentamento. E cogumelos nos tornamos, inconscientemente.
 
Pudéssemos cada um de nós ter uma flor única com que se preocupar. Protegê-la dos carneiros, de pequenos insetos, do vento, do inverno extremo. Cobri-la com o nosso afeto e atenção e não deixá-la fenecer nunca. Que esta flor representasse tudo aquilo que deveríamos considerar realmente importantes. Que nossas vidas fossem mais repletas de sentido e verdades.

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