A Formiga e A Cigarra - Um Ensaio0 comentários segunda-feira, 18 de outubro de 2010 Todos conhecem a fábula de Esopo, que narra a história de uma formiga trabalhadora e de uma cigarra preguiçosa. Sabem também que a formiga representa uma coisa, e a cigarra outra completamente diversa, e que a tal fábula tem uma função educativa, uma lição contida em sua moral final.Sei que sob a perspectiva de Esopo, a formiga é a personagem que mais no ensina o bem. Mas devo confessar que não consigo esconder a minha simpatia pela cigarra. Apesar de toda a sua inércia, inclino a ela a minha preferência e não à formiguinha rabugenta e intolerante. Mas neste meu ensaio não defenderei a cigarra. Pois aqui ela despe a roupagem de inseto cantor e boêmio para encarnar outro tipo de personagem. De antemão, devo avisar que não alimento visões maniqueístas sobre a natureza. Não consigo perceber nela elementos ou eventos que possam ser considerados propriamente bons ou maus. Tomo de empréstimos algumas palavras de Gibran Khalil para justificar esta minha afirmação: “Quando a amendoeira lança suas flores sobre o espinheiro, não diz: “Ele é desprezível e eu sou um grande senhor.” Com esta citação, tento demonstrar que a minha intenção é apenas alegorizar e não fazer uso das particularidades de criaturas distintas para promover polêmicas. A cigarra deste ensaio representa toda a gente que não trabalha em prol do afeto. Um tipo de pessoa que passa a vida inteira “cantando,” se lamentando por um amor ou sentimento que não recebeu, porque não soube se dar. É comum encontrar gente assim, incapaz de lutar em prol do amor, de alimentar os outros e a si mesmo. Passam, no entanto, boa parte do tempo, desperdiçando a existência em uma cantilena inútil, esperando que os bens caiam do céu, sem moverem uma única palha para que a vida lhes tragam êxito. A pessoa-cigarra é aquela que nada de afetivo produz, mas espera tudo dos outros. Sua cantoria, não é o canto entusiasta da primavera, é uma queixa de inverno, porque nas melhores estações, em vez de semear o trigo, ela desperdiçou o grão do amor em trabalhos levianos. É da pessoa-formiga que ela tentará usurpar o alimento, com uma ladainha repleta de lamentos e amarguras. Deveria aprender com as formigas. Observá-las em seu incansável trabalho de carregar lenta e ininterruptamente o alimento do amor. O cuidado com que elas trabalham em prol do afeto, acumulando benefícios. As pessoas-formigas constroem pouco a pouco as suas relações, como as formigas na natureza constroem os seus formigueiros. As pessoas-formigas alimentam o afeto nos outros e assim o recebem de volta, pois a sua jornada em proveito do amor nunca termina. Mas parece que cabe às pessoas-cigarras muito pouco aprender. Do alto das árvores, elas apenas gastam o seu tempo com cantigas menores, incapazes de modificar o seu modo de pensar, de agir e, sobretudo, de amar. Por fim, acabam envelhecendo os seus corações, se perdendo em lamúrias sem sentido, e como os insetos que lhes dão nome, acabam infelizmente com as almas ressequidas e ocas. Emergência0 comentários sábado, 16 de outubro de 2010 Para dor de amarNão existe Melhoral! Não adianta procurar Nas farmácias e melhores Casas de manipulação. Para dor de amor, Remédio homeopático Tratamento quimioterápico Método quiroprático Nem chá de boldo resolvem. Quando amarga O amor: Amargamor: Argamassa Da Dor. O amor é largo Nos lados Quando Escapa da visão. O amor é parco Na contramão Do abraço... Do coração. Ai, doutor haverá então
cura para esse mal de rejeição? Que tal uma injeção? A minha letal, Por favor! Azul0 comentários![]() Pendurado no parapeito da janela, ele que havia tido uma vida muito confortável e feliz, agora ensaiava uns passos teatrais rumo à morte. Estava no 11º andar e o vento frio, assoviava forte enregelando os ossos do seu corpo dolorido. Tremia, decerto; mas não sabia se era de frio, de medo, ou por causa do sofrimento que há dias tinha vindo se hospedar e que já habitava a sua vida como inquilino. Lembrou-se de tudo o que um dia teve: da felicidade, do emprego bem renumerado, do carrão do ano que comprou quando conseguiu a sua primeira promoção e da mulher, linda mulher, de corpo perfeito escultural, com quem fazia sexo frequentemente, duas vezes por dia. Antes tudo era alegria! Puxou da memória, uma lembrança. Não conseguiu se recordar. Havia sido infeliz alguma vez na vida? Havia experimentando aquela tristeza tão cortante em algum momento? Não, não havia. A morte nunca havia se aproximado. Todos os seus entes queridos vivos, todos por perto, admirando a sua determinação e iniciativa, elogiando o seu caráter de rapaz promissor. Olhou para frente. Através das janelas dos outros apartamentos. Num deles uma dona de casa passava aspirador no sofá. Noutro um rapaz escutava Ramones no último volume. Ninguém o percebeu. Nem mesmo a empregada doméstica que limpava incautamente o vidro da janela de um dos apartamentos um pouco mais abaixo. Nem mesmo os pombos que arrulhavam enamorados acima de sua cabeça. Lá embaixo, a vida caminhava na direção das máquinas, rumo às fábricas, ao trânsito sempre interminável da grande cidade São Paulo. Todos olhando para frente, sem dar conta de qualquer gesto estranho, presos àquela normalidade insuportável que reveste o dia. O céu e ele renegados. Inteiramente esquecidos por aquela multidão sempre sozinha, sempre autômata. Apoiou o braço nas laterais da janela. Balouçou para frente um pouco o corpo. Os olhos procuraram o chão. Não havia espaço. Com um pouco de azar, cairia bem em cima da calçada, ou quem sabe no canteiro? Ficou preocupado com as flores. As delicadas hortênsias que Dona Neusa, a vizinha do 702, havia plantado a pouco. Era uma boa mulher, uma velhinha que vivia sozinha depois da morte do marido e a ida dos filhos para os Estados Unidos. Era uma mulher corajosa e de fibra que para fugir da tristeza e da dor passou a se dedicar àquelas pequenas flores do jardim. Mas ele não tinha paciência e nem delicadeza para lidar com flores. Não iria se safar daquela angústia. Era maior. Seus dedos muito grandes, suas mãos calejadas e pesadas certamente não fariam bem a elas. Tinha na mão um copo de whisky. O gelo havia derretido por inteiro. Havia mais água do que bebida. Olhou para o líquido caramelo, aquela cor bronzeada de pôr-do-sol o fez pensar na mulher que havia o abandonado. Na sua pele que tanto parecia com aquela cor. Virou com amargura o copo de uma vez só. Não tinha mais dinheiro. Pra pagar as contas. Pra comprar comida, nem mesmo um cigarro por miúdo na venda da esquina. Apenas havia lhe sobrado aquela meia garrafa de whisky doze anos. Lançou o copo de vidro contra a parede do prédio vizinho. Queria ser notado. Ninguém ouviu o barulho. Ninguém prestou atenção nos estilhaços que voaram pelos ares. Debruçou-se sobre o parapeito, sentiu o vento frio roçar os seus cabelos, o seu rosto magro e entrar incomodamente pelas suas narinas. A sensação era de liberdade. Algo novo e desejado. Estava enfim livre. Como um pássaro. “Que se dane as flores.” Demorou cerca de dez horas. O mundo, como de costume, nada viu, nada ouviu. Como um Argos às avessas, fechou todos os olhos durante a noite. Até a garoa caiu despercebida. Dona Neusa, com ares de preocupação, de velha abandonada que sempre se importa com o alheio, resolveu cuidar das flores, na manhã seguinte. Deparou-se com aquela cena singular: o corpo do vizinho em paz, estendido ao lado de suas acanhadas hortênsias azuis. Uma Escada para o Paraíso0 comentáriosUm homem que estava muito cansado da vida resolveu caminhar mundo a fora à procura de algo que pudesse ser igual ou parecido com o paraíso. Depois de muito andar, encontrou uma escada que se estendia para o alto e conduzia às nuvens. Acreditando se tratar da oportunidade que ele tanto esperava, não hesitou um só instante, e começou a subir os degraus, ávido por alcançar o paraíso tão desejado. ![]() A subida, no entanto, parecia interminável. A cada degrau galgado o tempo passava rapidamente e embora o homem, mergulhado na sua louca ambição de atingir os céus não percebesse, os seus membros envelheciam e o seu corpo oscilava com a idade. Chegou por fim e com muito custo próximo aos últimos lances da escada. Bem diante dele, extensas nuvens brancas emolduravam o céu e limitavam o espaço entre o seu mundo conhecido e o mundo ideal que ele havia sonhado para si. Apressou por atravessá-las imaginando que depois delas estaria a recompensa por todos os seus anos de sacrifício. Subiu os últimos degraus e sentiu os seus braços estendidos dissiparem as nuvens. Os olhos se fecharam feridos, em contato com uma forte luz que vinha de cima e que ele pensou ser o esplendor do Éden. Ao abri-los outra vez, viu que se tratava da luz do sol que naquele azul intenso pareceu-lhe ainda mais forte e radiante. O paraíso que tanto almejara, não estava por sobre as nuvens como nos livros que ele costumara a ler. Tão somente o sol e o céu e os pássaros que voavam ao longo, em revoada. Decepcionado, pensou começar o caminho de volta, mas as suas pernas fraquejaram. Estava velho demais para continuar. Sentou-se então em um dos degraus e ali ficou avistando de cima a terra, recordando de tudo aquilo que a vida havia lhe ofertado de belo e bom e que ele havia desprezado por não conseguir divisar entre as suas tristezas e sofrimentos, o outro quinhão menos pesado, tão leve quanto o verdadeiro paraíso não encontrado. Certezas0 comentários
Dói em mim
![]() Dói em ti As mesmas coisas E coisas diferentes. Dói o sonho não realizado O amor pré-fabricado Que a gente inventa Até ficar convincente. Doem os dias passados Dói a idade mal gasta As contas não pagas O trabalho mal remunerado. Dói a fila do banco o coletivo apertado o leite derramado o choro da criança. Dói o dente cariado a pedra no sapato o cheque pré-datado e a morte anunciada da esperança. Dói o tempo passageiro e a saudade que nunca passa Dói, sobretudo, a dor de saber que a vida é pó, é lodo, e fumaça. Vogais0 comentários![]() "Como podes me amar tanto assim se você não sabe quem eu sou?" foi a pergunta que A impaciente fez a I, durante um encontro casual. I olhando-a nos olhos e buscando esconder as mãos trêmulas, respondeu hesitante: “Não, não sei. Alguém pode explicar o amor?” A então sorriu e retrucou: “Boa resposta.” E depois de alguns segundo em silêncio, prosseguiu: “Mas não soluciona a questão.”
I olhou-a novamente. O sorriso anteriormente dado havia se apagado e uma ruga de seriedade aparecera no canto dos lábios. “Não sei o que dizer. Desta vez, você me pegou. Eu só sei que te amo! Não há explicação. Não posso dizer se de menos ou se de mais. Não posso! Você precisa acreditar em mim e deixar as coisas rolarem.” A respirou fundo. Havia um enigma pairando sobre a cabeça dos dois. Desejava entender I, que tinha no olhar um brilho terno e cativante, mas sendo tão pragmática não podia aceitar a ideia de ser amada com tanta intensidade por um homem que a desconhecia. “Somos dois estranhos!”, pronunciou. “Sim, não passamos de dois estranhos, mas para o amor não há estrangeiros”, respondeu I confiante, lembrando-se de uma frase que ouvira ou lera em algum livro. “Você tem olhos lindos!”, desviou. “Pára com isso! Você não pára de me fazer elogios... Tá me deixando sem jeito.” “Eu quero saber quem você é. Me deixa tentar... Pelo menos isso! Se somos estranhos, me deixa frequentar a sua vida... descobrir aos poucos os segredos que você tem. Me deixa te amar desta forma, todos os dias um pouquinho. Talvez assim, eu consiga responder a sua pergunta.” A aguçou o olhar para ver o que os olhos de I denunciavam e não conseguiu notar nada de que pudesse desconfiar. Estava quase cedendo. Diante de palavras tão amorosas, via-se disposta a receber todo aquele carinho que I dizia ter para com ela, mas o seu coração já não era tão terno, tão receptivo e ela sabia que se entregar ao amor novamente exigia sacrifícios e talvez ela não estivesse ainda pronta para assumi-los. Além do mais, tinha medo de machucar I com a sua suposta incapacidade de amar. Nunca havia experimentado a sensação de ter um homem antes em suas mãos, tão submisso, tão declaradamente apaixonado. Aquilo lhe assustava. I olhava-a com uma ternura indescritível. Acompanhava os seus gestos delicados de borboleta e os seus olhos astutos de raposa que ele tanto dizia amar. A sorriu. Por um instante, I pensou ter sido atingido por um raio. Mas estava vivo. Seu coração corria no peito. Vivo como nunca esteve. Estendeu e tocou as mãos de A. Ela tentou escapar, mas ele foi mais rápido. “E aí o que me diz?” A suspirou. “Você não vai querer amar uma pessoa tão imperfeita,” respondeu. “Eu não vou querer amar outra pessoa que não seja você!” rebateu I, com firmeza. “Escuta, você é um cara incrível, mas eu não posso te dar esperanças. É melhor a gente parar por aqui," respondeu A, retirando as mãos. “Por que parar aqui? A gente nem começou ainda," se lamentou I visivelmente mordido. “Não sei. Não me pergunte o porquê! Tem que ser assim... Não me torture mais. É melhor ficarmos desse jeito... amigos... Assim ninguém se machuca.” “Eu já estou machucado. Você não sabe o quanto? Mas se isso é o que você quer, eu não vou mais te torturar. Por mais que eu te queira, você deve ter lá as suas razões. Nunca foi tão difícil tocar um coração. Já que você construiu um muro, eu não vou tentar atravessá-lo.” A verificou se I estava sendo sincero. Seus olhos, seus lábios não tremeram. I dizia aquelas palavras do fundo do coração. Teve a intuição derradeira de que ele não iria mais importuná-la. Levantou-se da cadeira, pegou a bolsa e disse: “Bem, a gente fica assim. Tá certo?” “Tá, tá certo. Como você quiser. Você vai, mas esse sentimento fica. Eu vou dar um jeito nele," respondeu I incerto. “Então, tchau!”, estendeu A amistosamente a mão. “Então, adeus!”, devolveu I seco negando-se a terminar aquele encontro com um simples aperto de mãos. A deu-lhe as costas e não olhou mais para trás. I observou-a se afastar; a sua silhueta luminosa se perdendo nas sombras da noite. Tirou o dinheiro para pagar a conta e com ele veio o guardanapo que no susto havia enfiado no bolso pouco antes de A chegar. Nele havia escrito, num surto de romantismo bobo, as letras iniciais do nome dos dois. Um desejo que ele havia contornado com a figura de um mal traçado coração. Olhou atentamente para aquele simbólico monograma e teve uma surpreendente revelação. “Não daria certo!”, pensou. “Estava escrito que não daria certo.”, compreendeu resignado. Era o que aquelas duas vogais A e I, lado a lado, dolorosamente lhe anunciavam. Do amor #10 comentários![]() O amor não é uma sabedoria. É antes de tudo uma forma de ignorância, uma cegueira. Mas paradoxalmente pode clarear a nossa visão, se a fase do desassossego, que sempre vem com ele, passar, inaugurando uma nova estação, pacífica e mais generosa. Nem todos conseguem sobreviver a esta febre. Insegurança, ansiedade, ciúmes, distorções idealistas são apenas alguns dos sintomas que surgem com a chegada do amor. Algumas das suas muitas faces obscuras que encaramos, como ao rosto de Medusa, a ponto de nos mudarmos em pedra. Inicialmente o acolhemos por considerá-lo um remédio, uma cura para todos os nossos males e problemas. Como se o amor fosse paliativo pra vida e para todos os seus obstáculos. Vemo-lo maior que o trabalho, o dinheiro, o sexo, o medo. Damos a ele uma importância máxima e o ocupamos com as nossas expectativas e esperanças como se ele pudesse nos dar tudo que desejamos. O amor nada pode fazer. Cabe apenas a nós a realização dos nossos sonhos e planos. O que ele pode trazer é apenas a sensação de bem-estar, a felicidade gratuita de poder compartilhar um bem comum com outro alguém. O amor é uma brisa leve que refresca, sozinho não pode mudar a paisagem. O Enigma do Espelho0 comentários![]() O que reveste a minha poesia? Seria uma capa de tristezas ou um desejo mais que profundo de amar e ser amado? Uma ânsia violenta ou um desdém por não ter encontrado abrigo, por não ter recebido esmolas, por não ter me alimentado de migalhas. O que diz cada verso meu? cada verso inverso de mim? que sombriamente tinge a minha vida com cores frias que luminosamente acende estrelas neste meu quarto-céu tão escuro. Quem saberá dizer o que o meu coração diz? Quem saberá interpretar cada ideograma que ele desenha sem sentido em um papiro qualquer da existência? Minhas palavras são sempre vazias, mas clamam por algo que as complete. O meu coração está sempre cheio e implora por alguém que o reparta ao meio. Dizem tudo e não são nada. São apenas reflexos de um espelho que não enxerga a si mesmo. Cárcere0 comentários![]() Palavras São apenas palavras. Elas não podem dar o Que apenas o teu amor pode dar. Eu construí meu mundo Em torno delas Fiz com cada som, cada Vocábulo o meu castelo E como um rei preso na torre Da Vida Espero que elas se desmanchem E se esvaziem até o Aniquilamento de tudo o que elas querem dizer. Estou surdo de tanto ouvi-las E perdido por tê-las acompanhado Sozinho porque o que me tange Tem a insuportável música das palavras Irei silenciá-las uma a uma... Irei despejá-las do meu coração Colocarei no lugar delas o sal dos dias O suor dos trabalhos As pétalas desbotadas do tempo. Esperarei que esse silêncio de vidro Me cubra por inteiro Com essa pá de cal que tudo Faz germinar sem forma, Sem cor, sem alma. Francisco e Eu0 comentários
Chico e eu somos velhos amigos. Confesso que ultimamente ando afastado. Por falta de tempo ou de juízo não o tenho procurado, mas acredito que isso não diminui a simpatia e o afeto que por ele sinto. Nós nos conhecemos há muito anos. Meu avô falou-me dele. Da sua generosidade, da sua alegria para com o trabalho manual, do seu amor pelos animais e pelas pequenas criaturas. Não foi difícil gostar dele. Bem antes de tê-lo conhecido, apenas tê-lo sabido por palavras, já tinha me afeiçoado a ele como a um irmão.
Conheci-o pessoalmente, quando ainda eu era um menino. Devia ter no máximo uns oito anos. Uma cadela que tínhamos adoeceu. Cinomose. Doença sinistra, que matava em poucos dias, incurável. Dolorosamente, o animal minguava aos nossos olhos. Esvaia-se em sangue, perdia a carne, murchava feito flor mal cuidada. Minha mãe chorava todos os dias. Havia se habituado ao bicho. A pobrezinha nem latia. Amuada num canto soluçava, fazia força para beber a água que dávamos e o alimento que oferecíamos. Os dentes começaram a rillhar. Típico da doença. Sinal de que a morte se aproximava. Depois de muita insistência, meu pai levou-a novamente ao Veterinário, que muito a contragosto, receitou alguns medicamentos. Mas aconselhou que o melhor a fazer naquele instante era aplicar-lhe uma injeção letal. Assim, o bicho não sofreria mais. Minha mãe não gostou da ideia. Era terminantemente contra. Se tivesse que morrer morreria de forma natural. Tinha ainda esperanças. Começou então uma romaria. Remédio na hora certa, água e alimento na boca, cuidados com a limpeza, carinhos e mais carinhos. Naquele momento, passei precocemente a viver muito próximo do sofrimento alheio. Eu, que apenas tinha o visto pela janela, o escutado através de rumores, tive meu primeiro contato com que sabemos doença, com que sabemos fragilidade da vida. Lembrei de Chico; meu avó chamava-o de amigo dos animais. Enquanto minha mãe se apegava de um lado a Roque, eu tomei a mão de Chico, apertei a minha a dele, e fiz uma oração, a oração mais pura e mais sincera que já fiz na vida. O que costumamos chamar de milagre representa uma dádiva, algo incompreendido, uma luz que se acende quando já imaginamos, em todas nossas frágeis certezas, que algo está perdido. Pois o milagre aconteceu. Não sei se graças às minhas orações, ou às orações de minha mãe. Acredito que tenha sido os dois. E os cuidados também. A cachorra sobreviveu e ficou com a gente por ainda mais doze anos. Francisco passou a ser mais frequente na minha vida. A ele dediquei um lugar especial no meu coração. Na adolescência quis ser como ele. Quis imitá-lo na sua imitação sincera da vida de Cristo. Nunca conheci outro que tivesse tido uma vida tão próxima do Mestre. Movido pelo idealismo da juventude, quis abrir as janelas e lançar tudo o que eu tinha fora, livrar-me de todas as amarras que me atavam ao mundo. Foi aí que conheci um Francisco mais humano que me ensinou a estar mais próximo da natureza, que me fez enxergar nas pequenas coisas, nas pequenas criaturas também um sinal grandioso de Deus. Senti-me tocado por uma imensa vontade de seguir os seus caminhos. Mas com o tempo, a fé me fez perceber, que eu bem podia santificar a minha vida, sem precisar mortificá-la. Francisco restituiu-me a vida generosamente, e intercedeu em mais um milagre, agora, dentro de mim. Inúmeras vezes, ele voltou a cruzar o meu caminho. Formatura, comunhão, aniversário, faculdade. Sempre esteve presente. Segurando as minhas mãos nos momentos difíceis, me ensinando a ter mais fé e esperança na vida e também nos homens. Um amigo que sempre foi um modelo a ser seguido, capaz de reacender no caminho dos homens os passos de Jesus, sem pedir nada em troca. A este querido amigo, eu confiei o meu coração para que ele se mantenha ao menos livre da mesquinharia e da arrogância humanas. Chico me ensinou a ser mais generoso, a ser mais humano, amando o mundo que Deus nos deu e o respeitando por este ser também uma benção do Criador. Quiromancia0 comentários quarta-feira, 29 de setembro de 2010![]() Dá-me a tua mão Para que eu possa fazer dela A minha estrada. Caminhar nas linhas que um dia Foram traçadas por uma estrela Desavisada. O destino é só uma pretensão! Não nos interessa o que ele tem A nos dizer. O amor nos dá a ilusão ideal das coisas Não terminadas De uma eternidade leviana bordada Com cores fortes Por aqueles que se amam E não creem na mística dos pontos finais. Olhar Clínico0 comentários segunda-feira, 27 de setembro de 2010
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