
Pendurado no parapeito da janela, ele que havia tido uma vida muito confortável e feliz, agora ensaiava uns passos teatrais rumo à morte. Estava no 11º andar e o vento frio, assoviava forte enregelando os ossos do seu corpo dolorido. Tremia, decerto; mas não sabia se era de frio, de medo, ou por causa do sofrimento que há dias tinha vindo se hospedar e que já habitava a sua vida como inquilino.
Lembrou-se de tudo o que um dia teve: da felicidade, do emprego bem renumerado, do carrão do ano que comprou quando conseguiu a sua primeira promoção e da mulher, linda mulher, de corpo perfeito escultural, com quem fazia sexo frequentemente, duas vezes por dia. Antes tudo era alegria! Puxou da memória, uma lembrança. Não conseguiu se recordar. Havia sido infeliz alguma vez na vida? Havia experimentando aquela tristeza tão cortante em algum momento? Não, não havia. A morte nunca havia se aproximado. Todos os seus entes queridos vivos, todos por perto, admirando a sua determinação e iniciativa, elogiando o seu caráter de rapaz promissor.
Olhou para frente. Através das janelas dos outros apartamentos. Num deles uma dona de casa passava aspirador no sofá. Noutro um rapaz escutava Ramones no último volume. Ninguém o percebeu. Nem mesmo a empregada doméstica que limpava incautamente o vidro da janela de um dos apartamentos um pouco mais abaixo. Nem mesmo os pombos que arrulhavam enamorados acima de sua cabeça.
Lá embaixo, a vida caminhava na direção das máquinas, rumo às fábricas, ao trânsito sempre interminável da grande cidade São Paulo. Todos olhando para frente, sem dar conta de qualquer gesto estranho, presos àquela normalidade insuportável que reveste o dia. O céu e ele renegados. Inteiramente esquecidos por aquela multidão sempre sozinha, sempre autômata.
Apoiou o braço nas laterais da janela. Balouçou para frente um pouco o corpo. Os olhos procuraram o chão. Não havia espaço. Com um pouco de azar, cairia bem em cima da calçada, ou quem sabe no canteiro? Ficou preocupado com as flores. As delicadas hortênsias que Dona Neusa, a vizinha do 702, havia plantado a pouco. Era uma boa mulher, uma velhinha que vivia sozinha depois da morte do marido e a ida dos filhos para os Estados Unidos. Era uma mulher corajosa e de fibra que para fugir da tristeza e da dor passou a se dedicar àquelas pequenas flores do jardim. Mas ele não tinha paciência e nem delicadeza para lidar com flores. Não iria se safar daquela angústia. Era maior. Seus dedos muito grandes, suas mãos calejadas e pesadas certamente não fariam bem a elas.
Tinha na mão um copo de whisky. O gelo havia derretido por inteiro. Havia mais água do que bebida. Olhou para o líquido caramelo, aquela cor bronzeada de pôr-do-sol o fez pensar na mulher que havia o abandonado. Na sua pele que tanto parecia com aquela cor. Virou com amargura o copo de uma vez só. Não tinha mais dinheiro. Pra pagar as contas. Pra comprar comida, nem mesmo um cigarro por miúdo na venda da esquina. Apenas havia lhe sobrado aquela meia garrafa de whisky doze anos.
Lançou o copo de vidro contra a parede do prédio vizinho. Queria ser notado. Ninguém ouviu o barulho. Ninguém prestou atenção nos estilhaços que voaram pelos ares. Debruçou-se sobre o parapeito, sentiu o vento frio roçar os seus cabelos, o seu rosto magro e entrar incomodamente pelas suas narinas. A sensação era de liberdade. Algo novo e desejado. Estava enfim livre. Como um pássaro. “Que se dane as flores.”
Demorou cerca de dez horas. O mundo, como de costume, nada viu, nada ouviu. Como um Argos às avessas, fechou todos os olhos durante a noite. Até a garoa caiu despercebida. Dona Neusa, com ares de preocupação, de velha abandonada que sempre se importa com o alheio, resolveu cuidar das flores, na manhã seguinte. Deparou-se com aquela cena singular: o corpo do vizinho em paz, estendido ao lado de suas acanhadas hortênsias azuis.
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