
"Como podes me amar tanto assim se você não sabe quem eu sou?" foi a pergunta que A impaciente fez a I, durante um encontro casual. I olhando-a nos olhos e buscando esconder as mãos trêmulas, respondeu hesitante: “Não, não sei. Alguém pode explicar o amor?” A então sorriu e retrucou: “Boa resposta.” E depois de alguns segundo em silêncio, prosseguiu: “Mas não soluciona a questão.”
I olhou-a novamente. O sorriso anteriormente dado havia se apagado e uma ruga de seriedade aparecera no canto dos lábios. “Não sei o que dizer. Desta vez, você me pegou. Eu só sei que te amo! Não há explicação. Não posso dizer se de menos ou se de mais. Não posso! Você precisa acreditar em mim e deixar as coisas rolarem.”
A respirou fundo. Havia um enigma pairando sobre a cabeça dos dois. Desejava entender I, que tinha no olhar um brilho terno e cativante, mas sendo tão pragmática não podia aceitar a ideia de ser amada com tanta intensidade por um homem que a desconhecia. “Somos dois estranhos!”, pronunciou. “Sim, não passamos de dois estranhos, mas para o amor não há estrangeiros”, respondeu I confiante, lembrando-se de uma frase que ouvira ou lera em algum livro.
“Você tem olhos lindos!”, desviou. “Pára com isso! Você não pára de me fazer elogios... Tá me deixando sem jeito.”
“Eu quero saber quem você é. Me deixa tentar... Pelo menos isso! Se somos estranhos, me deixa frequentar a sua vida... descobrir aos poucos os segredos que você tem. Me deixa te amar desta forma, todos os dias um pouquinho. Talvez assim, eu consiga responder a sua pergunta.”
A aguçou o olhar para ver o que os olhos de I denunciavam e não conseguiu notar nada de que pudesse desconfiar. Estava quase cedendo. Diante de palavras tão amorosas, via-se disposta a receber todo aquele carinho que I dizia ter para com ela, mas o seu coração já não era tão terno, tão receptivo e ela sabia que se entregar ao amor novamente exigia sacrifícios e talvez ela não estivesse ainda pronta para assumi-los. Além do mais, tinha medo de machucar I com a sua suposta incapacidade de amar. Nunca havia experimentado a sensação de ter um homem antes em suas mãos, tão submisso, tão declaradamente apaixonado. Aquilo lhe assustava.
I olhava-a com uma ternura indescritível. Acompanhava os seus gestos delicados de borboleta e os seus olhos astutos de raposa que ele tanto dizia amar. A sorriu. Por um instante, I pensou ter sido atingido por um raio. Mas estava vivo. Seu coração corria no peito. Vivo como nunca esteve. Estendeu e tocou as mãos de A. Ela tentou escapar, mas ele foi mais rápido. “E aí o que me diz?” A suspirou.
“Você não vai querer amar uma pessoa tão imperfeita,” respondeu. “Eu não vou querer amar outra pessoa que não seja você!” rebateu I, com firmeza. “Escuta, você é um cara incrível, mas eu não posso te dar esperanças. É melhor a gente parar por aqui," respondeu A, retirando as mãos.
“Por que parar aqui? A gente nem começou ainda," se lamentou I visivelmente mordido. “Não sei. Não me pergunte o porquê! Tem que ser assim... Não me torture mais. É melhor ficarmos desse jeito... amigos... Assim ninguém se machuca.”
“Eu já estou machucado. Você não sabe o quanto? Mas se isso é o que você quer, eu não vou mais te torturar. Por mais que eu te queira, você deve ter lá as suas razões. Nunca foi tão difícil tocar um coração. Já que você construiu um muro, eu não vou tentar atravessá-lo.”
A verificou se I estava sendo sincero. Seus olhos, seus lábios não tremeram. I dizia aquelas palavras do fundo do coração. Teve a intuição derradeira de que ele não iria mais importuná-la. Levantou-se da cadeira, pegou a bolsa e disse: “Bem, a gente fica assim. Tá certo?”
“Tá, tá certo. Como você quiser. Você vai, mas esse sentimento fica. Eu vou dar um jeito nele," respondeu I incerto. “Então, tchau!”, estendeu A amistosamente a mão. “Então, adeus!”, devolveu I seco negando-se a terminar aquele encontro com um simples aperto de mãos. A deu-lhe as costas e não olhou mais para trás. I observou-a se afastar; a sua silhueta luminosa se perdendo nas sombras da noite. Tirou o dinheiro para pagar a conta e com ele veio o guardanapo que no susto havia enfiado no bolso pouco antes de A chegar.
Nele havia escrito, num surto de romantismo bobo, as letras iniciais do nome dos dois. Um desejo que ele havia contornado com a figura de um mal traçado coração. Olhou atentamente para aquele simbólico monograma e teve uma surpreendente revelação. “Não daria certo!”, pensou. “Estava escrito que não daria certo.”, compreendeu resignado.
Era o que aquelas duas vogais A e I, lado a lado, dolorosamente lhe anunciavam.
I olhou-a novamente. O sorriso anteriormente dado havia se apagado e uma ruga de seriedade aparecera no canto dos lábios. “Não sei o que dizer. Desta vez, você me pegou. Eu só sei que te amo! Não há explicação. Não posso dizer se de menos ou se de mais. Não posso! Você precisa acreditar em mim e deixar as coisas rolarem.”
A respirou fundo. Havia um enigma pairando sobre a cabeça dos dois. Desejava entender I, que tinha no olhar um brilho terno e cativante, mas sendo tão pragmática não podia aceitar a ideia de ser amada com tanta intensidade por um homem que a desconhecia. “Somos dois estranhos!”, pronunciou. “Sim, não passamos de dois estranhos, mas para o amor não há estrangeiros”, respondeu I confiante, lembrando-se de uma frase que ouvira ou lera em algum livro.
“Você tem olhos lindos!”, desviou. “Pára com isso! Você não pára de me fazer elogios... Tá me deixando sem jeito.”
“Eu quero saber quem você é. Me deixa tentar... Pelo menos isso! Se somos estranhos, me deixa frequentar a sua vida... descobrir aos poucos os segredos que você tem. Me deixa te amar desta forma, todos os dias um pouquinho. Talvez assim, eu consiga responder a sua pergunta.”
A aguçou o olhar para ver o que os olhos de I denunciavam e não conseguiu notar nada de que pudesse desconfiar. Estava quase cedendo. Diante de palavras tão amorosas, via-se disposta a receber todo aquele carinho que I dizia ter para com ela, mas o seu coração já não era tão terno, tão receptivo e ela sabia que se entregar ao amor novamente exigia sacrifícios e talvez ela não estivesse ainda pronta para assumi-los. Além do mais, tinha medo de machucar I com a sua suposta incapacidade de amar. Nunca havia experimentado a sensação de ter um homem antes em suas mãos, tão submisso, tão declaradamente apaixonado. Aquilo lhe assustava.
I olhava-a com uma ternura indescritível. Acompanhava os seus gestos delicados de borboleta e os seus olhos astutos de raposa que ele tanto dizia amar. A sorriu. Por um instante, I pensou ter sido atingido por um raio. Mas estava vivo. Seu coração corria no peito. Vivo como nunca esteve. Estendeu e tocou as mãos de A. Ela tentou escapar, mas ele foi mais rápido. “E aí o que me diz?” A suspirou.
“Você não vai querer amar uma pessoa tão imperfeita,” respondeu. “Eu não vou querer amar outra pessoa que não seja você!” rebateu I, com firmeza. “Escuta, você é um cara incrível, mas eu não posso te dar esperanças. É melhor a gente parar por aqui," respondeu A, retirando as mãos.
“Por que parar aqui? A gente nem começou ainda," se lamentou I visivelmente mordido. “Não sei. Não me pergunte o porquê! Tem que ser assim... Não me torture mais. É melhor ficarmos desse jeito... amigos... Assim ninguém se machuca.”
“Eu já estou machucado. Você não sabe o quanto? Mas se isso é o que você quer, eu não vou mais te torturar. Por mais que eu te queira, você deve ter lá as suas razões. Nunca foi tão difícil tocar um coração. Já que você construiu um muro, eu não vou tentar atravessá-lo.”
A verificou se I estava sendo sincero. Seus olhos, seus lábios não tremeram. I dizia aquelas palavras do fundo do coração. Teve a intuição derradeira de que ele não iria mais importuná-la. Levantou-se da cadeira, pegou a bolsa e disse: “Bem, a gente fica assim. Tá certo?”
“Tá, tá certo. Como você quiser. Você vai, mas esse sentimento fica. Eu vou dar um jeito nele," respondeu I incerto. “Então, tchau!”, estendeu A amistosamente a mão. “Então, adeus!”, devolveu I seco negando-se a terminar aquele encontro com um simples aperto de mãos. A deu-lhe as costas e não olhou mais para trás. I observou-a se afastar; a sua silhueta luminosa se perdendo nas sombras da noite. Tirou o dinheiro para pagar a conta e com ele veio o guardanapo que no susto havia enfiado no bolso pouco antes de A chegar.
Nele havia escrito, num surto de romantismo bobo, as letras iniciais do nome dos dois. Um desejo que ele havia contornado com a figura de um mal traçado coração. Olhou atentamente para aquele simbólico monograma e teve uma surpreendente revelação. “Não daria certo!”, pensou. “Estava escrito que não daria certo.”, compreendeu resignado.
Era o que aquelas duas vogais A e I, lado a lado, dolorosamente lhe anunciavam.
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